Tuesday, July 28, 2015

ÓPERA FERNÁLIA

 CRIAÇÃO Tânia Almeida, Joana Magalhães
DRAMATURGIA Cecília Ferreira, Rui Mendonça
MÚSICA Bernardo Soares, Ricardo Casaleiro, Vasco Ferreira
LUZ Vasco Ferreira
MOVIMENTO Joana Castro
CENOGRAFIA E FIGURINOS Catarina Barros
TRAILER André Martins
INTERPRETAÇÃO Catarina Santos, Gonçalo Fonseca, Isabel Carvalho, Joana Magalhães, Luís Filipe Silva, Mónica Tavares, Rui Mendonça, Sílvia Barbosa
 

DANÇA DA VIDA vs DANÇA DA MORTE
 
 Partimos da ideia de uma ficção televisiva, de uma telenovela transposta para um palco, com a possibilidade de brincarmos com o formato e os seus códigos. E pelo caminho encontrámos a Lulu personagem de O Espírito da Terra de 1895 de Frank Wedekind.
O que a Lulu nos trouxe foi um sentimento de voracidade, pela vida e o que ela contém, a vontade de vivê-la tão intensamente que só o indivíduo e os seus apetites e desejos importam, como se à vida na terra nenhuma outra se seguisse, live fast, die young.
É nesta dança da vida que seguimos Lulu acompanhados de um sentimento de impotência face ao real. O real que tantas vezes teima em estragar-nos a festa, sendo rude ou entediante, até ao ponto em que mesmo que venha com boas intenções lhe queremos barrar a entrada, It's my party and I cry if I want to.
E é nesta luta contra o tédio, o aborrecimento e o real que vamos dançando até chegar à dança da morte, onde tudo estranhamente parece começar a ter significado. A vida encarada como momentos, flashes, sequências coladas umas às outras, que em final de balanço nos fazem pensar tanto barulho por nada e tudo a caminhar em direção ao letreiro The End.
Por isso há que aproveitar o silêncio enquanto temos salão.
Dancemos pois!
Tânia Almeida

MUTANTES

WORKSHOP DE FORMAÇÃO ARTÍSTICA PARA JOVENS
 Um projeto que envolveu artistas e grupos de jovens adolescentes. Ao longo de uma semana o grupo acompanhado por um artista construiu uma instalação a partir de um olhar sobre um lugar.  
 
ARQUITETURA 
 
ESCULTURA

LOMOGRAFIA
 
PINTURA
 
MÚSICA

LENDAS DO ALTO MINHO

 
 
 
RE-VERSO
a partir das lendas
A Nossa Senhora da Pegadinha e O Peregrino das Fontaínhas
 
 
 
O PENEDO
a partir das lendas
Flor do Montes, Rio de Âncora e Serra de Arga
 
 
 
MAGNÍFICOS
a partir das lendas
Mal Degolada, Pieira de Lobos, Serra da Nó, Unhas do Diabo, Galgo Preto, Rio Lima, Cabração, Santa Comba, Três Penedos e o Rego do Azar
 
 
 
BARTOLOMEU 5.0
a partir da lenda
das Cinco Badaladas
 
 
 
 
LENDAS DA NOSSA TERRA
a partir das lendas
Juiz do Soajo, Moura de Giela, Senhora da Peneda e Poço da Olá
 
 
  
PRIMARCKA
a partir das lendas
Fonte dos Porcos, Cova da Moura e Cervo Rei
 
 
 
TERRA
 a partir das lendas
O Morto Vivo, Mudança de Marcos, As Bruxas do Caminho de Melim, A Rainha Aragunta, O Monge e O Passarinho
 
 
SENHORA DOS MILAGRES
a partir da lenda
da  Igreja dos Milagres
 
 
 
FREI JOÃO DA CRUZ - O MUSICAL 
a partir da lenda
Frei João da Cruz
 
 
 
ANOITECEU
a partir das lendas
O Pretinho do Cruzeiro, O Campo da Fome, São Bento da Porta Aberta e Os Combates da Travanca
 
 
 
* Atividade promovida pela CIM Alto Minho, no âmbito do projeto Criarte

Tuesday, April 21, 2015

CADERNO NÃO LUGAR

Textos retirados de
NÃO-LUGARES de Marc Augé e do LIVRO DO DESASSOSSEGO de Bernardo Soares

 
Cena 1
Prólogo
H – Antes de ir buscar o automóvel, Pierre Dupont quis levantar dinheiro na caixa automática. O aparelho aceitou o seu cartão e autorizou-o a levantar 200 euros. Pierre Dupond carregou na tecla. O aparelho pediu-lhe que esperasse um instante, depois entregou-lhe a soma estabelecida, lembrando-lhe que retirasse o cartão.
M – “Obrigada pela sua visita”
H – Concluiu, enquanto Pierre Dupond guardava as notas na carteira.
M – O trajeto foi fácil: Descer para Paris pela autoestrada A11 não é problema numa manhã de Domingo. Não teve de esperar à entrada, pagou com o cartão de crédito na portagem de Dourdan.
H – “Obrigado, e boa viagem”
M – Contornou Paris pelo periférico e chegou a Roissy pela A1.
H – Estacionou na segunda cave.
M – J15
H – Enfiou o cartão de estacionamento na carteira, depois apressou-se para os balcões do Check in da Air France. Desembaraçou-se com alívio da mala.
M – Vinte quilos certos.
H – Estendeu o bilhete à hospedeira perguntando-lhe se podia ter um lugar de fumador na coxia. Silenciosa, ela assentiu com um sinal de cabeça, depois de ter consultado o computador entregou-lhe a seguir o bilhete e o cartão de embarque.
M – “Embarque na porta B às 18 horas.”
H – Precisou sorridente.
M – Apresentou-se um pouco mais cedo no posto de controlo da polícia para passar ainda pela loja duty-free. Comprou uma garrafa de Cognac .
H – “Uma recordação de França para os seus clientes asiáticos.”
M – E uma caixa de charutos.
H – “Para seu consumo pessoal.”
M – Teve o cuidado de guardar a fatura juntamente com o cartão de crédito. Percorreu por um momento com o olhar as montras luxuosas. Parou na livraria, folheou algumas revistas antes de escolher um livro fácil e retomou depois sem impaciência o seu passeio.
H – Saboreava a impressão de liberdade que lhe davam ao mesmo tempo o facto de se ter desembaraçado da sua bagagem e, mais intimamente, a certeza de apenas ter de esperar a sucessão dos acontecimentos. Agora que se pusera em regra, enfiara no bolso o seu cartão de embarque e declinara a sua identidade.
M – Não seria hoje nos lugares superpovoados onde se cruzavam ignorando-se milhares de itinerários individuais que subsistiria qualquer coisa do encanto incerto dos terrenos vagos, dos baldios e dos estaleiros, dos cais de gare e das salas de espera onde os passos se perdem, de todos os lugares de acaso e de encontro onde se pode experimentar fugidiamente a possibilidade mantida da aventura, a impressão que bastará ver o que aí vem.
H – O embarque fez-se sem problema. Os passageiros cujo cartão de embarque tinha a letra Z foram convidados a apresentar-se depois dos outros e ele assistiu com certo divertimento ao leve e inútil atropelo dos x e dos Y à saída da manga.
M – Enquanto esperava a descolagem e a distribuição dos jornais, folheou a revista da companhia e imaginou com um dedo aplicado o itinerário possível da viagem.


H – Heraklion, Larnaka, Beirute, Dharan, Dubai, Bombain, Banguecoque.
M – Mais de nove mil quilómetros num abrir e fechar de olhos e alguns nomes que, de tempos a tempos, davam que falar como temas da atualidade.
H – Relanceou a tarifa de bordo isenta de taxas.
M – “Duty free price list.”
H – Verificou que os cartões de crédito eram aceites nos voos de longo curso, leu com satisfação as vantagens que apresentava a classe de negócios das quais a generosidade inteligente da sua empresa o fazia beneficiar.
M – “Em Charles de Gaulle 2 e em Nova Iorque os salões Le Club permitem-lhe descontrai-se, telefonar, enviar um fax ou um minitel.”
H – “O Minitel é um serviço de videotexto criado em França em 1982, percussor da internet, o Minitel permitia a troca de mensagens e o acesso a serviços de informação.”
M – “Além de um acolhimento personalizado e de uma atenção constante , o novo assento Espace 2000 que equipa os voos de longo curso foi concebido de modo a tornar-se mais largo, com um espaldar e um apoio para a cabeça que se podem ajustar separadamente.”
H – Prestou um momento de atenção ao comando com painel digital do seu banco Espace 2000 e voltou depois a mergulhar nos anúncios da revista, admirando o perfil aerodinâmico de alguns modelos de estrada recentes, algumas fotografias dos grande hotéis de uma cadeia internacional, um tanto pomposamente apresentados como “os lugares da civilização.”
M – Depois, descobriu o anúncio de um automóvel que tinha o mesmo nome que o seu lugar de bordo.
H – “ Renault Espace, um dia, a necessidade de espaço faz-se sentir. A vontade irresistível de termos um espaço próprio, um espaço móvel que nos levasse longe. O espaço está já consigo, nunca se esteve tão bem em terra, como no Renault Espace.”
M – Estavam já a descolar. Folheou mais rapidamente a continuação, concedendo alguns segundos a um artigo sobre o hipopótamo, senhor do rio, que começava com uma evocação a África.
H – “Berço das lendas, continente da magia e sortilégios.”
M – Deu uma olhadela a uma reportagem sobre Bolonha.
H – “Em toda a parte podemos estar apaixonados, mas em Bolonha, apaixonamo-nos pela cidade.”
M – Um anúncio em inglês de um videomovie japonês despertou-lhe a atenção por um instante…
H – “Vivid colors, vibrant sound, and nonstop action. Make them yours forever.”
M – Pelo brilho das suas cores.
H – Um anúncio do cartão visa tranquilizou-o de vez.
M –“ Aceite no Dubai e onde quer que vá de viagem. Viaje com a máxima confiança com o seu cartão Visa.”
H – Relanceou distraidamente algumas recensões de livros e deteve-se um instante, por interesse profissional, na que resumia uma obra intitulada Euromarketing.
M – “A homogeneização das necessidades e dos comportamentos de consumo faz parte das tendências pesadas que caracterizam o novo meio ambiente internacional da empresa. A partir da incidência do fenómeno da globalização sobra a empresa europeia, sobre a validade e o conteúdo de um euromarketing e sobre as evoluções previsíveis do meio ambiente marketing internacional, numerosas questões se debatem.”
H – A recensão evocava, como remate.
M – “As condições propícias ao desenvolvimento de um mix o mais estandardizado possível. A arquitetura de uma comunicação europeia.”
H – Um tanto sonhador, Pierre Dupont pousou a revista. A inscrição fasten seat belt apagara-se. Ajustou os auscultadores, escolheu o canal 5 e deixou-se invadir pelo adagio do concerto nº 1 de Haydn. Durante umas horas, o tempo de sobrevoar o Mediterrâneo, o Mar Ar estaria enfim só.


Cena 2
A Descoberta

Cena 3
Desembarcar em Bordéus
H - O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório que havia numa outra casa, onde em tempos fui empregado. Este rapazito colecionava folhetos de propaganda de cidades, países e companhias de transportes; tinha mapas – uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali – Tinha, recortadas de jornais e revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exóticos, retratos de barcos e navios. Ia às agências de turismo, em nome de um escritório hipotético, ou talvez em nome de qualquer escritório existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens para a India, folhetos dando as ligações entre Portugal e Austrália.
Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho conhecido: Era também uma das pessoas mais felizes que me tem sido dado a encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, u, na verdade, suponho somente que deveria ter pena; Na realidade não a tenho, pois hoje, que passaram 10 anos, ou mais, sobre o breve tempo em que o conheci, deve ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez, sustentáculo social de qualquer – morto, enfim, em sua mesma vida. É até capaz de ter viajado com o corpo, ele que tão bem viajava com a alma.
Recordo-me de repente: Ele sabia exatamente por que vias férreas se ia de Paris a Bucareste, por que vias férreas se percorria a Inglaterra, e, através das pronúncias erradas dos nomes estranhos, havia a certeza aureolada da sua grandeza de alma. Hoje, sim, deve ter existido para morto, mas talvez um dia, em velho, se lembre como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.
Cena 4
Super(mercado)
 
M - Só, mas semelhante a quase todos os outros. Ele circula silenciosamente, consulta as etiquetas, pesa os legumes numa máquina que lhe indica o peso e o preço. A existência do contrato é-lhe ocasionalmente lembrada, o bilhete do estacionamento, a senha que deverá apresentar no Talho, ou até o carrinho que empurra à sua frente pelos corredores são outras tantas marcas da sua presença. A rádio faz publicidade às grandes superfícies; as grandes superfícies publicidade à rádio, os cartões, os descontos as marcas e as promoções fazem com que ele, semelhante aos outros, se ache assim apanhado nos ecos e nas imagens de uma espécie de cosmologia universal. Desenham um mundo que qualquer um pode fazer seu porque é nele incessantemente interpelado. A tentação do narcisismo é, aqui, ainda mais fascinante pelo facto de parecer exprimir a lei comum: Fazer como os outros para ser o próprio. Depois ele estende o cartão de crédito a uma mulher nova, também ela silenciosa, que submete cada artigo ao registo de uma máquina descodificadora antes de verificar o bom funcionamento do cartão de crédito. Diálogo direto, mas silencioso. Insere o cartão e no ecrã são transmitidas instruções, de um modo geral encorajadoras, por vezes verdadeiras chamadas à ordem. As palavras aqui quase deixam de intervir. Ele, leva uma sociedade inteira dentro de si. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que leva no seu interior mais dos outros, que une e concentra o que é dos outros, que tem mais de todos. Mas o que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, muitas vezes a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento, antes de que possa florescer em palavras.


Cena 5
Enfim só

Cena 6
Não Lugar
Cena 7
A Paisagem
H - A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo o que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem.
Ah, viajem os que não existem! Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos, uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Só não há tédio nas paisagens que não existem.
não há tédio nas paisagens que não existem.
Só não há tédio nas paisagens que não existem.

Cena 8
Viajantes solitários

Cena 9
A partida

H - Ele traça um itinerário, enuncia os nomes correspondentes, não conhece necessariamente grande coisa a seu respeito. Mas os nomes por si só bastarão para produzir no lugar essa erosão ou não-lugar que nele escava a lei do outro. Todo o itinerário é desviado pelos nomes que lhe dão sentido ou direções até então imprevisíveis. A viagem constrói uma relação fictícia entre olhar e paisagem.
M -  Ele experimenta-se como espectador sem que o espetáculo para ele conte realmente. Como se ele, em posição de espectador fosse para si mesmo o próprio espetáculo. Este olhar, a imagem de rostos curiosos ou contemplativos, solitários ou reunidos, que perscrutam o infinito do oceano, a cadeia circular de montanhas nevadas ou a linha de fuga de um horizonte urbano repleto de arranha-céus, não fala senão dele.
H - Assaltado pelas imagens, faz a experiência simultânea do presente perpétuo e do encontro consigo. A evocação profética de espaços onde nem a identidade, nem a relação, nem a história fazem verdadeiramente sentido, em que a solidão se experimenta como superação ou esvaziamento da individualidade, em que só o movimento das imagens deixa entrever, por instantes, àquele que as vê fugir, a hipótese de um passado e a possibilidade de um futuro.
M -  Um dia, talvez, de um outro planeta, virá um sinal. E o conjunto do espaço terrestre tornar-se-á um lugar. Ser terreno significará alguma coisa. É no anonimato do não-lugar que se experimenta solitariamente a comunidade dos destinos humanos. Haverá espaço amanhã, talvez já hoje haja espaço para uma etnologia da solidão.
 

TUDO SE TRANSFORMA

CRIAÇÃO Rui Mendonça
CO CRIAÇÃO E INTERPRETAÇÃO Tânia Almeida e Wendy
CENOGRAFIA Rita Nicolau
MÚSICA ORIGINAL Vasco Ferreira

 
 

Monday, April 20, 2015

FIM DE SEMANA COM AS COMÉDIAS

A apresentação pública da programação 2015 e a assinatura de um novo protocolo de Mecenato com a Ventominho deram início a um novo ano e a um intenso FIM DE SEMANA COM AS COMÉDIAS. O primeiro de muitos...

Afinal, é por essa razão que hoje celebramos com vocês a importância da cultura. É por assim acreditarmos, que estamos aqui a dar um sinal ao país da importância de projetos culturais como o das Comédias do Minho. Estamos aqui para sinalizar a importância dos municípios se associarem para trabalharem em rede. Estamos aqui porque esta região tem estado à frente do seu tempo comparado. Esteve neste projeto eólico que deu origem à VentoMinho, esteve na fibra ótica, esteve ao conseguir fixar uma companhia de teatro profissional, um projeto pedagógico, que alinhará esta região pelo que de mais cosmopolita o mundo tem. José Gonçalves Teixeira (Administrador da Ventominho)


Thursday, June 12, 2014

UM TRIBUTO AO VALE DO MINHO

A TKNT - televisão ke não é televisão, acompanhou todo o tributo ao Vale do Minho, filmou ensaios gerais, perdeu-se na paisagem, terra a terra, lugar a lugar. Pelo caminho, Nuno F. Santos, mentor do canal online, deixou-se levar pela poética de todo um território e foi escrevendo um quase caderno de viagem.

(clique nos links para ver e ler)

terna é a VOLTA das mulheres de Monção

CHUVA é hoje nome de ilha em Cerveira

UIVO, o dia em que descobrimos quem somos

TRIATRO, Em Valença é o povo quem mais ordena

o CHÃO de Coura que elas pisam e apontam

Thursday, March 27, 2014

CADERNO SINAIS DE CENA

A revista Sinais de Cena, da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, também faz 10 anos em 2014. É uma das maiores publicações de referência para as artes cénicas em Portugal. Num país com tão pouco investimento no registo, na memória e na reflexão crítica, 20 números de revista é um feito extraordinário.

Parabéns Sinais de Cena!

AS COMÉDIAS DO MINHO NA SINAIS DE CENA (clique no link para ver e guardar)

O caderno acima revisita todas as entradas Comédias do Minho na publicação:
um belíssimo Portefólio na Sinais de Cena 16
um Dossiê Temático sobre o prémio da Crítica 2011 na Sinais de Cena 17
os textos resultantes do Seminário para Novos Críticos (FITAVALE 2013) nos Passos em Volta da Sinais de Cena 20


Wednesday, November 13, 2013

CADERNO YEATS

OS PÁSSAROS BRANCOS e outros poemas de W.B. YEATS
tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira

(Terra do Desejo - fotos de João Tuna)  


CANÇÃO DA VELHA MÃE
Levanto-me de madrugada. ajoelho-me e sopro
Até que as sementes do fogo crepitem e brilhem.
Depois ponho-me a esfregar, cozer o pão, varrer
Até que espreitem as estrelas e cintilem.
E nos seus leitos dormem raparigas, sonhando
Combinar as fitas do cabelo e as do peito,
E passam o dia inativas,
E suspiram se o vento lhes sopra uma madeixa;
Enquanto eu, porque sou velha, tenho de trabalhar,
E as sementes do fogo definham e arrefecem.

QUANDO FICARES VELHA
Quando ficares velha, grisalha e sonolenta
E cabeceares à lareira, pega neste livro
E lê-o devagar, sonha com o amor meigo
E com as sombras profundas outrora nos teus olhos;

Quantos amaram os teus momentos de feliz encanto
E a tua beleza com amor falso ou autêntico,
Além daquele  homem que amou em ti a alma peregrina
E as tristezas que alteravam o teu rosto;

E curvando-te mais sobre a lareira ao rubro,
Murmura, um pouco triste, como o Amor fugiu
E caminhou sobre as montanhas lá no alto
E escondeu o rosto numa multidão de estrelas.
 

EFÉMERO
"Os teus olhos, outrora nunca cansados dos meus,
Ocultam-se tristes sob pálpebras cerradas
Porque o nosso amor declina."
                                                E ela disse:
"Embora o nosso amor esteja em declínio, fiquemos
Mais uma vez junto à solitária margem do lago,
Unidos nessa hora de tranquilidade
Quando a cansada e infeliz criança, a Paixão, adormece.
Como parecem distantes as estrelas, e distante
O nosso primeiro beijo e tão velho o meu coração!"
Pensativos caminharam por entre as folhas murchas
Enquanto ele, tomando-lhe a mão, lentamente respondeu:
"A paixão muitas vezes cansou os nossos corações inconstantes."

Os bosques cercavam-nos e as folhas amarelas
Caíam como débeis meteoros na escuridão e um coelho
Velho e aleijado passou de repente a coxear pela vereda;
O Outono tombava sobre ele. E agora eles ali estavam
Uma vez mais na solitária margem do lago:
Voltando-se, viu-se que ela lançara folhas mortas,
Colhidas em silêncio e orvalhadas como os seus olhos,
Sobre o seio e os cabelos.
                                                "Oh, não lamentes", disse ele,
"O nosso cansaço; outros amores nos aguardam;
Odeia e ama ao ongo das serenas horas.
Aguarda-nos a eternidade; as nossas almas
São amor e um contínuo adeus."

 

OS PÁSSAROS BRANCOS
Quem me dera que fôssemos, amor, pássaros brancos sobre a espuma do mar!
Cansamo-nos da chama do meteoro antes de ele fugir e se extinguir;
E a chama da estrela azul do crepúsculo, suspensa sobre a orla do céu,
Despertou nos nossos corações, amor, uma tristeza que não pode morrer.

Humedecida de orvalho chega uma lassitude daqueles que sonharam o lírio e a rosa;
Oh, não sonhes com eles, amor, a chama do meteoro que passa,
Ou a chama da estrela azul que se detém suspensa na queda do orvalho.
Pois quem me dera que nos tornássemos pássaros brancos sobre a espuma errante: eu e tu!

Estou assombrado por inúmeras ilhas e muitas praias das Danaan,
Onde o Tempo certamente nos esqueceria e Tristeza não mais se aproximaria de nós;
Em breve estaríamos longe da rosa e do lírio e seríamos consumidos pelas chamas,
Se ao menos fôssemos pássaros brancos, amor, flutuando na espuma do mar!


NOVIDADES PARA ORÁCULO DE DELFOS
I
Ali jazem os que são diferentes e auréos,
Com o orvalho prateado,
As grandes águas suspiraram de amor,
E o vento que suspirou também.
Niamh, aquela que os escolhe, recostou-se e suspirou
Junto de Oisin na relva:
Ali suspirou entre o seu coro de amor
O imortal Pitágoras.
Raiado de sal sobre o seu peito,
Plotino veio, olhou em volta,
E, num bocejo, tendo-se deitado
Ficou a suspirar como os outros.

II
Montados no dorso de um golfinho
E seguros a uma barbatana,
Aqueles que são puros revivem a sua morte,
Abertas de novo as suas feridas.
As águas extáticas riem porque
Os seus gritos são doces e estranhos,
Dançam com passos ancestrais,
E os selvagens golfinhos mergulham
Até que numa baía abrigada por abruptos rochedos,
Por onde perpassa o coro do amor
Ofertando as sagradas coroas de louro,
Eles se libertam do seus fardos.

III
Peseu olha Tétis fixamente,
Esguia adolescência que uma ninfa desnuda..
Os seus membros são delicados como pálpebras,
O amor cegou-o com as suas lágrimas;
Mas o ventre de Tétis está atento.
Das vertentes da montanha, onde fica
A caverna de Pã, uma música
Áspera principia a descer.
Imunda cabeça de cabra, braço brutal,
É ali que surgem; ventre, ombro, nádegas
Dardejam como peixes; ninfas e sátiros
Copulam na espuma.


NUNCA ENTREGUES TODO O CORAÇÃO
Nunca entregues todo o coração, pois não vale
Muito a pena pensar no amor
De  mulheres apaixonadas desde que firma
Nos pareça, e nunca elas imaginem
Quanto vai definhando de beijo para beijo,
Pois tudo o que nos seduz mais não é
Do que fugaz deleite, doce e sonhador.
Oh, nunca entregues o coração completamente,
Pois elas, por mais que os suaves lábios o afirmem,
Entregaram ao jogo os seus corações.
E quem poderá ainda jogar bem
Se estiver surdo, mudo e cego de amor?
Aquele que fez isto sabe o quanto custa
Pois entregou todo o coração e perdeu.


UMA RAPARIGA ENLOUQUECIDA
Essa rapariga enlouquecida improvisando a sua música,
A sua poesia, dançando sobre a praia,
Com a sua alma de si mesma dividida
Trepando, caindo sem saber aonde,
Escondendo-se entre a carga de um vapor,
De joelhos esfolados, essa rapariga, eu a declaro
Algo de majestoso e belo, ou algo
Perdido heroicamente, heroicamente achado.

Ocorresse o que ocorresse
Ela deixava-se envolver pela desesperada música
E envolvida, envolvida, construía o seu triunfo
Onde os fardos e os cestos não produzem
Qualquer som comum inteligível
Mas cantavam: "Ó faminto mar. mar esfomeado."
 

AS QUATRO IDADES DO HOMEM
Começou a lutar com o corpo,
Mas o corpo venceu: caminha erguido.

Depois lutou com o coração:
Separaram-se a inocência e a paz.

De seguida lutou com o espírito;
Ficou abandonado o seu coração orgulhoso.

CONVERSA DE PORTA ABERTA - 24 Outubro 2013 Monção

com Joana Providência (coreógrafa), Rosa Quiroga (atriz), Tânia Almeida (atriz e criadora das CdM) e ainda Constança Carvalho Homem (tradutora e dramaturgista), Sandra Salomé (atriz) e Ana Limpinho (cenógrafa)


FALEMOS DE CASAS

A casa, seja como metáfora, lugar de exploração temática, ou segredo, é uma imagem abundantemente trabalhado pelas artes performativas. Interior, exterior, habitantes e visitas, imagéticas cenográficas e/ou coreográficas. Será este o ponto de partida para mais uma conversa de porta aberta, no momento em que se preparam INABITANTES, solos que irão habitar a casa do Projeto Pedagógico e TERRA DO DESEJO, onde uma casa ancestral é ameaçada pela vinda das fadas. Não podemos deixar de recuperar CASA GRANDE, projeto maior das Comédias do Minho nestes últimos anos de ciclo intensamente territorial.

(clique nos links para ouvir)



CADERNO DIVIDIDOS







CONVERSA DE PORTA ABERTA - 5 Junho 2013 P Coura

com Lee Beagley (encenador da P.S. - Produções Suplementares) e Gonçalo Fonseca e Luís Filipe Silva (atores e criadores das CdM)


REINOS CIDADES PROPRIEDADES -TERRITÓRIOS ARTÍSTICOS

Na preparação de DIVIDIDOS, um Rei Lear de Shakespeare nas paisagens do Vale do Minho e de A CONSTRUIR VALENÇA, uma ópera escolar que 'ficciona' a história da cidade, vamos discutir de que modo um território demarcado pode construir-se como lugar de criação e interpelação artísticas.

(clique nos links para ouvir - todas as respostas de Lee Beagley são seguidas de tradução feita no momento por João Pedro Vaz)

Lee Beagley sobre reinos de ficção, a divisão da terra, a força das pedras e a relação do público

Gonçalo Fonseca sobre as dificuldades de ler a história real de Valença com um grupo de crianças

Luís Filipe Silva e a sublimação

Armando Lopes pergunta sobre a relação entre gerações e a resposta de Lee Beagley aborda a ideia de contexto para o teatro

Alfredina Vargas pergunta sobre os morgadios com resposta de Lee Beagley
 

José Vargas pergunta sobre o uso teatral das pronúncias regionais com respostas de Luis Filipe Silva e Lee Beagley, que esclarece das pronúncias em Shakespeare  

Eugénio Domingues pergunta sobre a relação regional com a terra e o cristianismo com respostas de João Pedro Vaz, Lee Beagley e Luís Filipe Silva

Gonçalo Fonseca, Luis Filipe Silva e João Pedro Vaz sobre o envolvimento local e o papel da criação artística na religação comunitária (a partir dos projetos A Construir Valença de 2013 e Deu-la-Deu de 2011)

Tânia Almeida e João Pedro Vaz sobre o projeto Casa Grande de 2011

Baltasar Esmeriz pergunta "O que é para vocês o teatro?" com respostas de Lee Beagley, Gonçalo Fonseca, Luis Filipe Silva e fecho de João Pedro Vaz 

Monday, May 13, 2013

CADERNO MARIA!

"MARIA! NÃO ME MATES QUE SOU TUA MÃE!"
de Ricardo Alves
a partir da tragédia de faca e alguidar de Camilo Castelo Branco

música de Rodrigo Santos




Cena 1 - Chegada

Chegada da trupe de comediantes ao exterior
Música de chegada e convite ao público para entrar

Vinde ouvir ó bom povo
Uma historia escabrosa
Crime de sangue e nojo
De uma filha ambiciosa

O amor foi traiçoeiro
Fez desejar ter prazer
Um prazer tão prazenteiro
Que fez o sangue correr

Mãe morta mãe morta
Foi por filha decepada
Espeta corta e recorta
Fica a mãe bem separada

Cena 2 - Apresentação da história

Nuno - Senhoras e senhores venham conhecer a história de Maria José, do José Maria e de Matilde PAIS DE FAMÍLIA! Atendei e vereis o maior de quantos crimes se tem visto no mundo! Vereis uma filha matar a sua mãe, porque esta lhe não deixava fazer o quanto desejava.

Vasco - Vereis como essa filha corta a cabeça de sua mãe, e os braços, e as pernas, e vai pôr cada pedaço de corpo de sua mãe em diferentes lugares, para que ninguém conhecesse o cadáver da morta, nem a mão que a matara e despedaçara.

Nuno - Vereis como a matadora de sua mãe, de sua mãe ó pais de famílias, de sua mãe, que a trouxera nas entranhas, que lhe dera o alimento dos seus peitos, que a criara ao seu lado com beijos e afagos, que tirara o pão da sua boca para o dar à sua filha, que fora talvez pedir uma esmola para que a sua filha não tivesse fome, e não desse seu corpo em troca de um bocado de pão!

Pedro - Vereis como esta filha sem alma, sem medo de Deus, sem temor das penas do inferno, é descoberta como matadora de sua mãe, por um milagre, pela providência de Deus!

Vasco - Vereis aquela mulher com alma de tigre comer com toda a vontade e contentamento, ao pé da cabeça ensanguentada de sua mãe

Nuno – É essa a cabeça da tua mãe?

Mónica - Sim! Essa é a cabeça de minha mãe!

Nuno - Pais de famílias! Eu vou contar-vos o mais triste e espantoso acontecimento que viu o mundo, e que talvez não torne a ver. Chamai vossos filhos convosco e fazei que eles a decorem, que a tragam consigo, e que a repitam uns aos outros.

Cena 3 - A vida do ilustre Camilo

Já na sala enquanto se monta o cenário

Vasco - Ilustre público, hoje, para vós, iremos apresentar o drama "Maria! Não Me Mates, Que Sou Tua Mãe!”,

Pedro - historia alinhavada pelo grande Camilo Castelo Branco

Nuno - de quem a vida dava também ela um romance

Vasco - Mas aos 23 anos ainda antes da sua vida ter chegado aos capítulos centrais e antes do engenho marcar sua escrita, deixou para gaudio de todos nós esta história pavorosa

Pedro - Era o ano de 1848, Camilo está no Porto sem saber de amigo nem família, nem tão pouco de comida certa. Deixou-nos ele dito de sua boca que mais não era que

Nuno - “anjo puro de inocência”

Vasco - “um anjo literário”.

Pedro - O trabalho, em dois jornais que lhe aceitam os escritos, são de má paga. Já o hotel francês, ali há rua da fabrica, esse que as mensalidades em dia

Vasco - E que fazer? Nuno - Os jornais noticiaram um dia o assassinato de uma pobre velha, atribuído à sua própria filha.

Pedro - Mas disso Camilo não o podia ainda saber. E numa noite, senhoras e senhores, em apenas uma noite escreve Camilo pequeno e comovente livro que merce a atenção do público é comprado sofregamente, salvando assim o poeta da bancarrota.

Nuno -Senhores, às musas não mais pedimos que nos iluminem como iluminaram o ilustre Camilo Castelo Branco para que possamos nós abrilhantar o vosso serão com historia tão pungente, tão sofrida que ficará para sempre na vossa memoria e de onde, estou certo retirareis mil ensinamentos.

Pedro - E mais pedimos, desta feita a vossas senhorias, que sejais beneméritos na avaliação que por certo fareis do nosso desempenho. E que, quando os chapéus rodarem por entre vós, não vos acanheis e saberdes dar justo pagamento a quem vos emocionou e vos levou às lágrimas.

Nuno - Que possa uma vez mais a triste história de Maria e sua mãe salvar artistas da bancarrota.

Vasco - Mas deixemos por agora de lado o lado prosaico da vida, e vamos pois emita-la Pedro - Mas com a distância de história contada, o que torna tudo mas aceitável.

Retoma a música para entrada na sala 

Cena 4 – A História 

Nuno - Em Lisboa, na travessa das Freiras n.º 17 havia um homem chamado Agostinho José casado com Matilde de Rosário da Luz. Tinham duas filhas, uma das quais se chamava Maria José. Farto de trabalhar para sustentar com o suor de seu rosto a honra de sua família. Agostinho José morreu, e deixou entregue à sua virtuosa mulher as suas duas filhas, dizendo-lhe:

Vasco - Matilde, quando não puderes trabalhar com tuas filhas, vai pedir uma esmola para lhes dares um bocado de pão, mas não as deixes cair na desgraça de mundanas, porque eu não me poderei salvar se minhas filhas desonrarem minhas cinzas.

Nuno - O pobre velho morreu abraçado à sua querida mulher, e amadas filhas, e pode-se dizer que os levou atravessados na garganta para a sepultura.

Tânia – Ai filhas….

Mónica e Ivo – Oh Mãe…

Vasco - A desgraçada viúva pôs uma das suas filhas a servir em casa de honrados amos, e 'ficou com a outra em casa para a ajudar a viver.

Ivo sai de cena

Mónica e Tânia - "Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu; o pão nosso de cada dia dai-nos hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém." Ave, Maria cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

Pedro começa a segunda ave maria - Metia compaixão ver aquela mãe, tao contente com a sua filha depois de terem ambas repartido entre si os poucos lucros do seu trabalho, aplicados para um bocado de pão e uma sardinha, ver como ela ensinava à filha as orações que já sua mãe lhe havia ensinado, o modo de pedir a Deus um meio de passar a vida com honra e sem vergonhas do mundo!

Vasco - Maria José parecia que amava sua mãe com toda a sua alma e coração. Andava de dia vendendo algumas coisas numa tendinha que tinha comprado com as economias de sua mãe e à noite rezava o terço à Virgem Maria, e ao mesmo tempo compunha meias para fora, com cujo produto se vestia.

Nuno - Toda a vizinhança olhava para esta rapariga com admiração porque já tinha 29 anos, e ainda não havia nota ruim que se lhe pusesse, e ninguém se atrevia a pôr nela a boca.

Valsa 
Canta o Pedro
A vida muda, muda
O mundo gira, muda
Passa o tempo e muda

Muda a vida de quem anda
Neste mundo, neste tempo
Tudo muda, tudo gira
Nada é certo, completo

Firmemente nada é
Para sempre nada dura

Tudo muda, muda
A vida gira, muda
Passa o mundo e muda

Gira o tempo todo tempo
Tudo muda, tudo morre
Nada fica cá p´ra sempre
Tudo cai e se levanta

De tudo se faz mudança
Nada pára tudo avança.

Cena 5 - O Vilão 

Vasco - Uma vez andando Maria José vendendo com a sua tenda, chegou-se ao pé dela um rapaz de boas maneiras, e começou a conversar com ela sem lhe dizer coisa que tivesse maldade.

Todos saem, fica só Mónica e entra Ivo 

Mónica – Olha Lenha, olha o carvão Para aquecer e para o fogão

Ivo – É lenha!

Mónica – É! É lenha.

Ivo – Eu gosto… da lenha.

Mónica – Ah. Eu também.

Ivo – Ah!

Mónica – É!

Ivo – E também tem carvão.

Mónica – Tenho, tenho carvão.

Ivo – Eu também gosto do carvão, gosto muito do carvão.

Mónica – Ah… eu prefiro a lenha, suja menos.

Ivo – Sim, o carvão suja. Uma porcaria. Odeio carvão.

Mónica – Pois.

Ivo – É

Mónica – Olha Lenha, olha o carvão Para aquecer e para o fogão Compre à Maria José A melhor lenha que há ….é

Ivo – Ah Maria José?

Mónica – É.

Ivo – Oh José Maria.

Mónica – Oh quem diria….

Silêncio curto

Ivo – Odeio carvão. Suja muito

Mónica – Pois é…

Ivo – Maria José…

Mónica – José Maria…

Ivo – Quem diria…

Pedro - A rapariga escutou-lhe as palavras, e ficou entendendo que o José Maria não era mau rapaz e que a não buscava para maus fins. E continuou a conversar com ele.

Ivo – De forma que eu botei de fugir dali, mas eles vieram atrás de mim, mas lá consegui escapar-lhes

Mónica – E o presunto?!

Ivo – Não o larguei.

Mónica – E depois?

Ivo – Comi, ora essa, ia fazer o quê?

Mónica – Deve ser bom o presunto…

Ivo – É!

Mónica – Ah!

Ivo – É… é salgado… nem gostei…Não é assim….

Mónica – Nunca comi.

Ivo – Mas comerás

Mónica – Comerei…

Nuno - Continuou a conversar com ele, até que ele lhe chegou a dizer que se fosse da vontade dela, que se lhe não dava de casar com ela. Maria José não desgostou de ouvir o que lhe disse o seu conversado, e respondeu-lhe que quem governava nela que era a sua mãe, e se ele não estava a mangar que fosse falar com ela, e talvez lhe desse o sim, porque sua mãe não a queria para freira.

Cena 6 - Pedido de casamento 

Ivo entra

Tânia – Quem está aí? Que é que você está aqui a fazer?

Ivo – Dona Matilde.

Tânia – Que tem?

Ivo – A sua filha…

Tânia – Ai ai minha filha…

Ivo – Como é que lhe hei-de dizer isto?

Tânia – Aiiiiii! A minha filhinha! A minha Filhinha morreu…

Ivo – Morreu

Tânia – Ai que ela morreu
 
Ivo – A Maria José morreu

Tânia - Valha-se santa Filomena, que a minha filhinha se foi e agora está lá junto ao meu Agostinho. AI filha … ai minha querida filha, ai filhinha

Ivo e Tânia - E de que morreu ela?

Ivo – Então você é que disse que ela morreu!

Tânia – Você é que disse

Ivo – Eu?! Eu vinha cá era para pedir o seu consentimento…

Tânia –O meu consentimento para quê?

Ivo – Para eu e ela…

Tânia –Para tu e ela o quê?

Ivo – É para lhe pedir a mão dela.

Tânia – Ai filha! A mão dela?

Ivo – É, eu mais ela temos conversado…

Tânia – E já conversam à muito?

Ivo – Ah… sim, há já um bocado que somos conversados…

Tânia – Então queres casar com a minha Maria José… e como te já chamas?

Ivo – Eu sou José maria

Tânia – ahh!

Ivo – Quem diria.

Tânia – Diria o quê?

 Ivo – Quem?

Tânia – Quem diria

Ivo – Pois, que eu sou o José maria

Tânia – E?...

Ivo – E ela é Maria José

Tânia – É.

Ivo – Pois é, quem diria

Tânia – diria o quê?

Ivo - ai valha-me deus…

Tânia suspensão de quem vai retomar a ladainha – E és temente a Deus?
 
Ivo – Sim…

Tânia – E vais á missa

Ivo – Sempre que posso.

Tânia – E és amigo do trabalho?

Ivo – Eu cá, dona Matilde sou amigo de meu amigo, e se meu amigo é amigo eu sou seu amigo também. E nos amigos não se toca.

Tânia – Então a Maria José e o José Maria…

Ivo – Quem diria… pretendemos casar se for do seu grado …

Tânia – Eu também não a queria para freira

Ivo – Era um desperdício

Tânia – Manda então ler os banhos.

Ivo – Os banhos?!

Tânia – Sim.

Ivo – Na igreja?

Tânia – Sim!
 
Ivo – A do padre?

Tânia – Sim!!

Ivo – O da paroquia?

Tânia – Sim!!!

Ivo – Pois tem que ser … bom eu vou então mandar ler os banhos…

Samba 
canta o Ivo
A vida muda, muda
O mundo gira, muda
Passa o tempo e muda

Muda a vida de quem anda
Neste mundo, neste tempo
Tudo muda, tudo gira
Nada é certo, completo

Firmemente nada é
Para sempre nada dura

Tudo muda, muda
A vida gira, muda
Passa o mundo e muda

Gira o tempo todo tempo
Tudo muda, tudo morre
Nada fica cá p´ra sempre
Tudo cai e se levanta

De tudo se faz mudança
Nada pára tudo avança.

Cena 7 - O pecado

Pedro - José Maria continuou a ir a casa da esposada, enganando-a que se estavam a ler os banhos. A rapariga afez-se a ter paixão por ele, porque o via a todas as horas, e esperava que o traidor lhe não mordesse a palavra. A mãe, que tinha mais anos e mais experiência do mundo, agourava mal daqueles amores, porque os banhos nunca mais se acabavam de ler, e o José Maria tinha já uma confiança em sua casa como se fosse marido de sua filha.

Passagem do tempo. 
Quatro vezes vai José Maria a casa de Maria José. 

Primeiro tímido, leva uma maça para dar à dona da casa. 
À distancia, os namorados trocam olhares 

Tânia - Oh Maria!

Mónica - Ai mãe.

Ivo saindo – Ai!

Depois já mais confiante, leva ainda uma maça. Sentam-se mais perto os namorados e tentam o contacto físico sob o olhar da mãe. 

Tânia - Oh Maria!

Mónica - Ai mãe.

Ivo saindo – Ai!

Já muito à vontade, tira as maças à mãe para as partilhar com a filha bem juntos sentados lado lado.

Tânia - Oh Maria!

Mónica - Ai mãe.

Ivo saindo – Ai! Ai!

Na última visita a mãe antecipa-se e senta-se estrategicamente no espaço central. Os apaixonados não se incomodam e Maria senta-se ao colo de José no espaço livre. 

Tânia - Oh Maria!

Mónica - Ai mãe.

Ivo saindo – Fogo!

Pedro - Quando aquela boa mãe repreendia com boas maneiras a muita fraqueza da filha, esta toda se arrufava, e virava as costas à mãe, resmungando palavras desobedientes. Filhas ingratas! Não sabei vós que torcer os olhos de mau modo para uma mãe é o mesmo que cuspir nas tabuas da lei de Deus! O enganador José Maria, com o demónio no coração, a impostura na boca foi pouco a pouco amolecendo a fraca resistência que Maria José fazia ao seu brutal apetite. A pobre rapariga se tivesse ouvido os conselhos de sua mãe não cairia na desgraça de se deixar enganar como de facto deixou pelo seu pérfido homem que para outra coisa não ia àquela casa, senão para fazer jogo da confiança que lhe fora dada.

Cena 8 – Aparece o monstro.

Pedro - A infeliz mãe pressentiu a desonra de sua filha e já não lhe podia valer:

Tânia - Minha filha! Eu muitas vezes te disse o que eram os homens, não que eu tivesse queixa do meu. Porque teu pai era honrado e virtuoso Como aqueles que o são; mas porque os rapazes de hoje não são o que eram os dalgum dia. Disse-to muitas vezes, e tu ou me respondias com arremesso e enfado ou me viravas as costas em ar de desprezo. Não te pude valer. Deus Nosso Senhor me perdoe - se eu não tive forças para te castigar, porque eu tinha-te muito amor, e nunca me capacitei deveras que houvesse um tredo tão grande como o José Maria. Mas já agora que não tem remédio, minha filha, filha do meu coração, em bom pano cai uma nódoa. Minha filha, por alma de teu pai que está na presença de Deus a pedir teu perdão, pelas cinco chagas te peço que deixes esse homem, que há-de acabar de te lançar na perdição, onde não acharás meios de te salvar da justiça de Deus, e das vergonhas do mundo.

Mónica - Minha mãe, ora deixe-me que não estou para aturá-la. Ainda vinha a tempo com os seus sermões. O valer-me era a tempo, agora que eu sou dele como se fosse sua mulher hei-de ser com ele desgraçada até à morte. Sabe que mais? Se casar, casou; se não casar é o mesmo; eu gosto e ele gosta...

Tânia - Ai minha filha que linguagem é hoje a tua tão diferente daquela que era antes de este maldito aqui entrar. Ai minha filha que estás de todo! Ó meu marido perdoa-me, perdoa-me, bem vês que eu não fui culpada.

Mónica -Ó minha mãe... sabe que mais… Se quer estar comigo há-de ver, ouvir e calar, que é regra de bem viver, se não quiser a rua é larga, o mundo é grande.

Tânia - Queres dizer com isso que me pões fora de casa, não é o queres dizer-me?!

Mónica - Ou isso, que vale a mesma coisa.

Tânia - Pois então sabe que se eu até aqui te tratei como mãe carinhosa, de hoje em diante hei-de ser mãe como deve ser. Se de ora em diante aqui tornar a ver José Maria hei-de queixar-me à administração do concelho que esse homem vem a minha casa contra a minha vontade, e tu e mais ele haveis de ser atrancados no Limoeiro, tu como filha desobediente e ele como um sedutor de uma rapariga que se deixou ir de suas palavras.

Mónica - Bem me importa a mim dessas coisas, pela constituição não se prende ninguém por seduzir raparigas, e de mais foi muito de meu gosto, acabou-se, está dito. (SAI)

Repete música de evoluir história 

Tânia - Veremos, Maria, veremos qual de nós é que vence! Oh meu Deus, mudai as tenções da minha filha, mostrai-lhe a verdade das minhas palavras, e fazei que ela conheça o caminho da perdição, onde a sua má estrela a lançou.

Cena 9 – A ideia de crime

Nuno - A filha ria-se de escárnio, e ao mesmo tempo estava com ódio a sua mãe. Deus não quis tocar-lhe o coração, porque Ele quis ver até que ponto poderiam chegar os crimes no século de desmoralização e pecado em que vive- mos. Passou-se aquele dia de lágrimas para a mãe, e Maria José não apareceu em casa o resto do dia porque tinha ido onde estava o seu amante.

Fado do crescer tarde
canta a Mónica
 
Só se perde o que se tem
Ninguém chora o que não sabe
A vida ensina também
Que o prazer não é pecado

A vida só sabe bem
Se tem sabor completo
E não se vive também
E não se vive tão bem
Sem coração inquieto

Ninguém vive meia vida
Ninguém vive sem amar
Não quero vida fingida
Não quero vida sofrida
Eu nasci para te adorar

Mónica – A minha mãe não te quer tornar a ver lá em casa

Ivo peito feito para a luta – Ai é? Mas ela que é que tem que dizer…

Mónica – É diz que se lá voltares faz queixa à administração central

Ivo peito vazio que era só ar – Ai é?

Mónica – E que tem?

Ivo – Alembras-te do presunto. Era do padre e ele foi fazer queixa

Mónica – O da paróquia

Ivo – Sim.

Mónica – E os banhos?

Ivo – …de forma que agora os beleguins da administração andam assim de olho em mim…

Mónica – Ai …

Ivo – … e não era muito bom …

Mónica – O presunto?

Ivo – não, o dar nas vistas é que não era bom, o presunto era bom.

Mónica – pois, nunca comi…

Ivo – Mas comerás

Mónica – Comerei…

Ivo – Ai, se a tua mãe não existisse…

Pedro - Oh Céus, onde estão os vossos raios que não caem sobre a cabeça deste infame, que pede a uma amante que mate sua mãe, para mais a salvamento gozar os seus escandalosos e torpes desejos! Oh céus! Como quereis que um homem vos insulte tão claramente, atrevendo-se a proferir estas palavras: Ó filha mata tua mãe... Meu Deus, eu sou um fraco bichinho na terra, e atrevo-me a interrogar a vossa alta sabedoria! Perdoai-me, meu Deus!

Fado - Filha mata a tua mãe
Vasco – Oh filha mata a tua mãe (x12)

Cena 10 – A súplica

Nuno - Maria José, quando tornou para casa, no dia seguinte, ainda sua mãe não tinha comido nem bebido e estava deitada sobre a cama, vestida, com os olhos inchados de chorar. Parece que tinha envelhecido vinte anos. As rugas da pele tinham-se aprofundado, e os cabelos embranqueceram-lhe em o espaço duma só noite.

Mónica - Então que faz aí?

Tânia - Minha desgraçada filha! Atende às lágrimas de tua mãe; bem vês que é aquela que te deu ao mundo, que sofreu as dores de mãe, que se lança de joelhos a teus pés, pedindo que não lhe cubras a cara com o negro véu da vergonha nos últimos dias de sua vida.

Mónica – Mãe… olhe que se assim continuar não há-de viver muito. Mãe, ou o José Maria há-de ter aqui entrada a toda a hora do dia e da noite, ou então... então... Ai mãe.

Tânia – Ai filha

Cena 11 - Entra em cena o vilão

Vasco - Nisto entrou o José Maria.

Mónica e Ivo abraçam-se

Nuno -. Matilde, assim escarnecida por essa filha prostituta, arrancou do peito um grito de dor como se lhe tivessem dado uma facada no coração.

Tânia – Ai, nossa senhora das almas! Que deus me perdoe que fui uma fraca! Eu te esconjuro filha encardia! E tu belzebu! Que mais não és que pecado de perna, a ti te condeno. Para sempre. Que sobre vós caiam as pragas. As dez do Egipto e as sete do Apocalipse. Que vos comam as carnes e vos rilhem os ossos. Que vos queime o fogo que queimou Gomorra, que vos coma o enxofre que comeu Sodoma. E seja eu sal! Se a vós vos botar um olhar que seja de piedade ou dó.

Ivo e Mónica encostam-se sobre o lado direito. 

Pedro - Por fim a infeliz e atribulada viúva, a mãe de todas as mais desgraçadas, não teve remédio senão calar-se porque não queria que os vizinhos escutassem as desonrosas e vergonhosas questões que haviam em casa.

Cena 12 – A chantagem

Ivo - Maria; ou tu hás-de dar cabo dessa maldita velha o mais breve, ou então eu deixo-te por uma vez, e não quero saber de desgraças.

Mónica – Ora, eu tenho medo de a matar, ela grita e cá por cima mora a mestra de meninas, que a ouve, e depois se se sabe que há-de ser de mim?

Ivo - Tu és uma estúpida? O matá-la é de dia porque as meninas fazem barulho a ler, e não se devem ouvir os gritos de tua mãe.

Mónica - Mas eu tenho tanto medo de matá-la!!... Tenho alguma pena dela, se tu casasses comigo já ela te não proibia que cá viesses, e se me tens amor, a ponto de quereres que eu mate minha mãe, então porque não casas comigo

Ivo - Está bom, está bom, temos lamúrias? Se queres, queres, se não queres nentes que se escama o gajo.
 
Cena 13 – Quem leva do amante, vinga-se na mãe. 

Pedro - Isto são ditos que os vadios e brejeiros têm sempre prontos. José Maria foi-se, e a rapariga, desesperada e aflita com os feios modos e destemperos do seu amante, foi-se ter com a mãe, e descompô-la com estas e outras palavras…

Mónica não avança para o centro da cena. Ivo continua em cena. Os outros avançam. Ivo e Mónica reagem Eles desistem. Viram-se para o Nuno

Nuno imitando Mónica - Você seu estupor velho, é a causadora da minha perdição. O meu regalo era pegar numa faca e cortar-lhe a cabeça com ela. Seu estafermo saia daqui...

Vasco - E dizendo isto deu um pontapé na mãe, que não teve remédio senão sair do lugar aonde estava para o patamar da escada.

Tânia recua para a direita de cena. Ivo e Mónica continuam imóveis 

Cena 13A – Pausa de reenquadramento dos factos.

Nuno – Senhoras e senhores, vai seguindo a história ao ritmo que as historias tem.

Vasco – E cada uma tem o seu ritmo, a sua urgência de ser contada.

Pedro – Ficam talvez esquecidos, pequenos pormenores que, por serem de somenos importância, não dão os narradores a devida importância

Nuno – Facto que não teria nenhum mal se esse pequeno facto não baralha-se factos, deixando crescer no público insidiosa duvida que lhe impede o justo raciocínio.

Vasco – E como podereis senhores avaliar toda a justeza dos acontecimentos narrados se não expusermos perante vós todas os cambiantes morais que dão cor a este drama. Pedro – Falemos pois do presunto, senhoras e senhores.

Nuno – O apetitoso presunto.

Vasco – Coxa decepada a porco, salgada ainda crua e que por processo lento de fumeiro se torna iguaria muito apreciada.

Nuno – Mas por certo todos sabereis como fazer um bom presunto e mais certos estamos que todos sabereis aprecia-lo,

Pedro – A gula, pecado capital contra o qual Deus nos avisou. Peca por gula, também, o que procura iguarias finas, e requintas nos prazeres do paladar; e até, quem repisa, a toda hora, na conversa, esses tópicos. E a Deus isso não apraz. Não há pecados menores.

Nuno – A sardinha a quem é de sardinha e apenas petinga a quem mais não alcança.

Pedro – Porque o pecado é desejar.

Nuno – E a gula mais não é que porta aberta a outros pecados.

Vasco – Passagem à perdição, ao crime. Ao enredo da mentira.

Pedro – O pecado é uma vereda ingreme, perdendo o equilíbrio é o abismo que nos espera. E Deus vê tudo.

Nuno – Não perdoa

Vasco – Apenas os penitentes…

Pedro – Os para sempre penitentes, que arrastam as grilhetas do passado, poderão talvez esgueirar-se por entre os portões do céu.

Ivo desiste e sai de palco 

Nuno – Gentil público, que sobre nós continuem caindo as suaves graças das musas Andam os barcos Nadando no mar E vão os barcos Onde o vento os levar E os barcos andado Do ar fazem vento Vento que soprando Faz mais barcos andar Começando o vento Ninguém o pode parar Nem mesmo um lamento O consegue abrandar

Cena 14 – A descoberta do roubo

Oração da mãe
Tânia - Peço Deus Clemencia perdão.
Dá-lhe a mão que está perdida
Leva a vida toda errada.
Anda enganada
Sem saber
O que fazer
Sem perceber
Que nesta vida
Entre o deve e o haver
Entre o querer e o ter
Fica um mundo
De desejos
Sem sentido
Sem prazer.
Não mais sofrer
Não pode ser.
Todos pagámos.

Pedro - A mãe depois de chorar lágrimas de sangue, e de ter pedido a Deus que pela sua infinita misericórdia desse um jeitinho à vida errada de sua filha, foi ver debaixo do enxergão se acharia um pé de uma meia que lá tinha com 3 moedas, restos de todas as economias de sua vida, e que ela reservava para mandar dizer 60 missas por sua alma e 60 por alma do seu marido, de esmola 120 reis cada uma.

Vasco - Mas qual seria o seu espanto e aflição quando não achou o seu dinheirinho? Primeiramente deu um grito do fundo do coração, e depois perdeu os sentidos e caiu. Este dinheiro já a filha lho tinha roubado para o dar ao seu amante.

Cena 15 – O confronto

Nuno - Quando Maria José entrou e viu assim desfalecida sua mãe, e a cama mexida, conheceu logo que sua mãe já sabia do roubo, e que havia de berrar; e assim esteve logo ali para a matar.

Colocam a Mónica no local

Vasco - A velha tornou a si, e quando viu diante sua malvada filha começou com grandes gritos

Tânia – O meu dinheiro Maria? Onde está o meu dinheirinho? Maria? Esse dinheiro era a minha salvação e da alma de teu pai!

Mónica é fantoche manipulada à bruta pelos narradores e pela mãe. 

Cena 16 – O regedor

Pedro - A filha primeiro quis fazê-la calar à força pondo-lhe a mão na boca; mas vendo que nada conseguia, foi-se ter com António Ferreira do Sul, regedor da freguesia de Santa Engrácia,

 Mónica – Senhor regedor meta a minha mãe no hospital, está doida. Berra que a querem matar.

Nuno – Vai, que eu me irei informar do estado de tua mãe e lhe darei providências.

Vasco – Pais de família, louco são os que, cegos pelos seus desejos mais torpes, tentam que a realidade se molde às suas ambições. A infame Maria José ficou feliz com o seu cínico engodo.

Pedro – Podem enganar a lei dos homens, mas Deus vê tudo. E vê de tudo. E é infinita a sua bondade, é infinita a sua misericórdia. Para o justo. Porque também é infinita a sua vontade de castigar os ímpios, os pecadores que se afastam do caminho que para nós trilhou. Chorai pais de família que o destino de Matilde está já escrito a fogo e sangue. Com seu sangue e com o fogo que corrói as entranhas da sua filha impiedosa

Cena 17 –  Engodo

Mónica – Mãe, amanhã lhe trarei o seu dinheiro.

Pedro - A infeliz desgraçada velha. Com isso sossegou alguma coisa, mas ó desgraça! ó dor! ó crime sem igual! A maldita e condenada filha já a estas horas fazia de conta que às mesmas horas do dia seguinte teria matado sua mãe! Nuno - Oh! Meu Deus! Dai-me forças para poder continuar e enxugai-me estas lágrimas dos olhos!

Cena 18 - Reflexão

Vasco - Filhas que amais vossas mães, tremei, tremei de horror!

Nuno- Mães que amais vossas filhas, chorai, chorai de compaixão!

Pedro - Pais de família, fazei por dar uma educação a vossos filhos, que não deixe remorso na hora tremenda em que vossas almas estiverem para voar à presença de Jesus Cristo!

Cena 19 - O crime

Nuno - Em toda a noite daquele dia, Maria não apareceu em casa, foi onde estava o José Maria e pediu-lhe ferros para matar sua mãe. O malvado deu-lhe duas facas de sapateiro, e lá lhe disse que fizesse aquilo que vou contar, se Deus Nosso Senhor mo permitir. Eram dez horas do dia 11 de Setembro, quando Maria entrou em casa.

Tânia – Trazes o meu dinheiro

Mónica – Não tarda que venha, mãe.

Sentam-se as duas A mãe coloca a cabeça no regaço da filha para que esta a cate. A mãe sente as facas no bolso. 

Tânia - Que trazes no bolso. Maria?

Mónica - São duas facas, minha mãe.

Tânia - Para que andas de faca?

Mónica - São do José Maria que mas deu para eu mandar amolar ao barbeiro.

Mónica dá uma facada na mãe

Tânia - Maria, porque me matas? Maria minha filha, tiveste coração de enterrar uma faca no peito de tua mãe! Tiveste coração de rasgar aquelas entranhas que te geraram! Maria, porque me matas? Que mal te fiz eu, minha filha, para me dares esta facada por onde me foge a vida? E se tinhas tenções de me matar, porque me não mandaste confessar, ou ao menos fazer o acto de contrição? Ah Maria, Maria, que tens de dar contas a Deus pela minha e pela tua alma!

Tânia - Meu Pai do Céu... perdoai-me.

Cena 20 - Escondendo o crime em bocados pequeninos

Pedro - Cobre-te de luto ó natureza! Chora no Céu Virgem Maria que também fostes mãe carinhosa! Chorai aves do ar que criais os vossos filhos debaixo das vossas asas! Chorai que aí caiu uma boa mãe morta com duas facadas aos pés duma filha já condenada! Depois de morta sua mãe, Maria José com a maior presença de espírito e ânimo de carrasco com a mesma faca começou a cortar-lhe a cabeça.

Vasco - E vendo que não podia arredondar o osso, foi cortar com segunda faca, e como ainda não pudesse, começou a dar-lhe golpes de machada, até que de todo lhe despegou a cabeça do pescoço. Depois cortou-lhe as orelhas e o nariz e os beiços e deu-lhe mais de vinte golpes na cara, e queimou-lhe o cabelo.

Nuno - Depois levantou um tijolo do lar e enterrou os pedaços da cara e da cabeça. Depois cortou-lhe as pernas e as mãos. E a noite embuçou-se num capote e pegou no tronco da mãe e foi pô-lo nas obras dc Santa Engrácia.

Pedro - Tomou a casa, pegou nas pernas e nas mãos e foi pô-las na travessa das Mónicas.

Vasco - E depois voltando para casa pôs-se a lavar a roupa ensanguentada da mãe e deitou-se nos mesmos Iençois onde sua mãe dormia com ela dois dias antes e com a cabeça dessa mesma mãe enterrada aos pés da cama.

Cena 21 - Interrogatório

Pedro - No dia seguinte saiu de casa e foi-se pôr a ver o corpo e as pernas de sua mãe entre aquela multidão de pessoas que lastimavam aquele acontecimento. Aconteceu estar aí o mesmo regedor a quem ela pedira que mandasse meter sua mãe no hospital dos doidos. O que o regedor por uma inspiração do céu mandou prender aquela mulher,

Nuno – Onde está a tua mãe?

Mónica – Não sei.

Nuno – Onde está a tua mãe?

Mónica – Não sei.

Nuno – Onde está a tua mãe?

Mónica – Não sei.

Vasco - Mas no quintal da mesma casa estavam a enxugar algumas roupas tintas de sangue. E escavaram o chão da casa.

Nuno – É esta a cabeça da tua mãe?

Maria – Sim, é esta a cabeça da minha mãe.

Cena 22 – Conclusão

Vasco - Passou-se a um processo, e a ré foi condenada no dia 5 de Novembro a sofrer morte natural para sempre na forca, que se há-de levantar no campo de Santa Clara, passando por aqueles lugares onde foi pôr os pedaços do corpo de sua mãe.

Nuno - Aqui tendes - Ó povos! – O maior crime que viu o mundo, praticado em Lisboa no ano de 1848!

Pedro - Estes atentados contra Deus, esta guerra de irmãos com irmãos, estes acontecimentos de filhos matarem pais, e esses sinais que nos aparecem no céu, tudo indica que o fim do mundo está chegado.  

Cena 23 – O peditório 

Vasco – E assim, senhoras e senhores, acaba a história contada.

Ivo – E acaba também a história que não foi contada.

Pedro – E todas as outras histórias: as histórias que foram escutadas.

Mónica – Porque, senhoras e senhoras, por cada história contada, luz que ilumina, há uma outra, sombra projectada da primeira: a historia que não se quer contar.

Tânia – E por entre a luz e as sombras, surgem todas as outras histórias, as que mais interessam, as que cada um de vossas excelências achou por conveniente escutar.

Ivo – E senhoras e senhores, nós somos apenas fracos bichinhos da terra… (tira o chapéu em sinal de respeito, os outros imitam-no)

Mónica – Humildes servidores de vossas excelências.

Pedro – Pobres penitentes indignos da vossa misericórdia

Vasco – E que mais não podemos desejar que a noite tenha sido do vosso agrado.

Tânia – Que tenham sido benevolentes as musas.

Mónica – Que tenham inspirado o nosso verbo e o nosso gesto Pedro – E que vossas senhorias se tenham emocionado e chorado.

Tânia – E agora é chegada a hora

Vasco – A hora que sempre chega

Repete a valsa enquanto passam o chapéu pelo público