Tuesday, February 26, 2013

CADERNO PASSE-VITE

OS FILMES

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O GUIÃO



Passe-Vite
uma performance gastronómica
Duração: 1h10m
Tempo da acção: noite e serão
Personagens – por ordem de entrada em cena:
- João Miguel Vaz Frio, crítico gastronómico
- Yakusa, chef de cozinha
- Juanita, equipa de cozinha
- Marie, equipa de cozinha
- Gaby, equipa de cozinha
- Gomes de Sá, dono do restaurante
- Vítima anónima, comparsa no início só se torna personagem a partir da sua captura

Música e ambiente com tom sinistro.

Entra público. Vítima e João Miguel Vaz Frio entram mesclados e em conjunto com o público. Um restaurante. Ao fundo, perto da entrada da copa, uma bancada de cozinha móvel. Mesas com toalhas de linho e candelabros com velas. As pessoas vão-se sentando. João Miguel Vaz Frio deambula pelo espaço e tira notas no seu caderninho de apontamentos. Existe uma mesa com um letreiro que diz ‘reservado’ onde acaba por se sentar o crítico.

Passa Yakusa lentamente sem falar, só olhando.

JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (dirigindo-se para YAKUSA mas sem olhar para ele):
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (dirigindo-se a um cliente): Já foi atendido?
CLIENTE: Não, não.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Há quanto tempo está à espera?
CLIENTE: Há cinco minutos.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: E a senhora?
CLIENTE: Um quarto de hora.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Um quarto de hora, que vergonha!

Pára a música. Toca o telefone de João Miguel Vaz Frio.

JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (dirigindo-se aos restantes clientes): Com a vossa licença (atende).
GOMES DE SÁ: Boa noite.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Boa noite.
GOMES DE SÁ: Gomes de Sá, restaurante Passe-Vite.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Eu estou no restaurante Passe-Vite.
GOMES DE SÁ: Você já aí está?
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Sim, eu fiz uma reserva para jantar.
GOMES DE SÁ: Muito bem. Ah, sim, é para jantar!
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Sim, pois, para jantar. Estou com alguma pressa.
GOMES DE SÁ: Tem pressa. Porquê?
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Tenho um compromisso.
GOMES DE SÁ: Bom. Tem um compromisso às dez e meia?...
É aqui perto?...  É longe?... E demora muito tempo?... Se calhar, vai ter com a família ou tem um compromisso com uma amiga... ou, então, tem só alguma pressa para jantar. Se calhar, prefere jantar depois.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Depois? A que horas?
GOMES DE SÁ: Depois do compromisso. Lá para as onze e meia… meia-noite. Será?
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Tão tarde?
GOMES DE SÁ: Uma da manhã… duas!
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Para jantar?!
GOMES DE SÁ: Sim, hoje teremos um menu degustativo tardio.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Mas repare que, se agora estou com uma larica, a essa hora estarei esfomeado.
GOMES DE SÁ: Com certeza será um bom sinal! Por ventura, desejará agora enganar o estômago. Mordiscar qualquer coisa.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Enganar… isso não combina bem com um restaurante de classe.
GOMES DE SÁ: Forrar o estômago será mais indicado.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: E o que é que tem para forrar o estômago?
GOMES DE SÁ: Vamos então tratar disso. Deixe-se ficar
(Ao telefone: sons de materiais a rasgar, vocais e baque.)
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Está? Está?

Volta a ouvir-se música na sala (Nature’s Wrath – The Budos Band) e o serviço de mesas começa. São colocados em sequência os pratos por Yakusa, os guardanapos por Juanita, os copos por Marie e as velas são acesas por Gaby.

JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (para cada um dos elementos da equipa, que nunca lhe respondem, tornando-se cada vez mais irritado): Traga-me a ementa… Faça-me o favor de trazer a ementa… Fala português?… Parlez-vous Français?... Já pedi a ementa! Quantas vezes é necessário pedir a ementa? Ementa, ementa, ementa, ementa, ementa, ementa, ementa! O cardápio! Por amor de Deus!... Este prato está sujo! (Gaby troca o prato por outro de outra mesa). Ah! Alguém finalmente! Mas este também está sujo!

A equipa coloca no peito dos clientes os guardanapos após uma pequena coreografia com os primeiros quatro guardanapos que são desdobrados. A música pára de tocar.

Yakusa traz uma cesta de pão e começa a distribuir perguntando em japonês se as pessoas querem pão. Começa-se a escutar vozes que cantam ‘pão, pão, pão’ vindas da copa. Yakusa escuta-as expressivamente e começa a cantar.

[1º número de variedades: Música do pão]

YAKUSA (canta em japonês, o que traduzido significa): Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus todo-poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos – ó Rei das Nações! Senhor, quem não reverenciará o teu nome? Quem não lhe dará glória? Porque só Tu és Santo! Todas as nações virão prostrar-se diante de Ti, pois as tuas justas sentenças foram promulgadas!

GABY, JUANITA e MARIE (no refrão): Pão com olhos, queijo sem olhos e vinho que espirre para os olhos. Pão com olhos, queijo sem olhos e vinho que espirre para os olhos. (Yakusa canta parte da frase em japonês e em resposta a equipa continua)…. abre o apetite. E consentido é um acepipe. Mais vale pão duro do que figo maduro.

JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Podiam trazer patê, se faz favor? Um queijo, um patê, quer um quer o outro, o que tiver…

A equipa termina a coreografia que acompanhou a Música do Pão, numa imagem final. Desfaz e mantém-se em linha recta. Em voz-off, ouve-se uma música heróica (Hercules – The Legendary Journeys):

GOMES DE SÁ (apresentando-se a si mesmo em tom eufórico): Ladies and gentlemen! Mesdames et messiers! Senhoras e senhores. Convosco prémio revelação 2001: Gomes de Sá!

(Palmas)

GOMES DE SÁ (já na sala): Obrigado, obrigado. Boa noite, boa noite… Sejam bem-vindos ao Passe-Vite e, especialmente hoje, dia em que festejamos o nosso 12º aniversário. Vejo muitas caras conhecidas, outras nem tanto… e estou bastante comovido por partilharem este momento convosco.
                Para este dia tão especial, temos um menu degustativo tardio, elaborado pelo nosso chef, para quem peço uma salva de palmas, grande aplauso, Yakusaaaaaaaa! Acompanhado pela sua equipa: Mary, Gabi e Juanita. (Alguém bate palmas) Pode ser (referindo-se às palmas dirigidas às ajudantes).
                Este nosso 12º aniversário reserva-nos uma noite de variedades para disfrutar durante a degustação apoteótica da nossa ceia. E para iniciar esta magnífica noite, senhoras e senhores, uma das sete maravilhas da gastronomia nacional, convosco: o caldo verde!

O serviço inicia-se ao som de Mulath Astake - Yermo Sew.

[Shot de caldo verde servido às mesas pela equipa de cozinha]

Enquanto o apreciam, vou circular pelas mesas para vos dar conselhos e sugestões de moda e arte, como é meu hábito.

GOMES DE SÁ (dirigindo-se a um cliente): Que cor incrível! Recorda-me o azul do mar de um quadro de … que conheci em novo.

Gomes de Sá contacta com pessoas de mais duas ou três mesas. Ao falar, apalpa os clientes nos ombros e braços. Toca-lhes também com os dedos na face e nariz. Aproxima-se da mesa da vítima.

GOMES DE SÁ (dirigindo-se à vítima): Olá, boa noite! É a sua primeira vez, não é?
VÍTIMA: É, sim.
GOMES DE SÁ: Prazer! (pega-lhe na mão). Gomes de Sá ao seu dispor! Está a gostar? (vítima anui) Espero que sim. Não pude deixar de reparar no seu vestido: é incrível! Importa-se de dar uma voltinha?
VÍTIMA: Quer que me levante?
GOMES DE SÁ: Sim. Faz-me lembrar um quadro de Matisse: as noivas. Esta pérola é divinal! 

A Vítima levanta-se, dá uma volta sobre si, segurando na mão de Gomes de Sá e volta a sentar-se. Gomes de Sá continua a circular pela sala e chega à mesa do crítico.

GOMES DE SÁ: Boa noite, Gomes de Sá ao seu dispor. Marchant do restaurante Passe-Vite: a arte de satisfazer o seu apetite. Está tudo do seu agrado?
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (mostrando-lhe o telemóvel): Não.
GOMES DE SÁ: Não?...
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Já estou à espera há quinze minutos e ainda não fui atendido.
GOMES DE SÁ: A espera é o nosso amuse bouche para lhe divertir a boca.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Perde a piada quando se tem pressa.
GOMES DE SÁ: Mais um?! Se veio sem tempo, se calhar, fica apertado.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Apertado!
GOMES DE SÁ (desinteressa-se e parte para outras mesas): Apertado para degustar o nosso menu.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Já tivemos esta conversa antes, sabe?
GOMES DE SÁ: Já nos conhecemos?
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Sim. Falámos ao telemóvel.
GOMES DE SÁ: Pois. Sabe, eu falo com tanta gente ao telemóvel…
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Acabámos de falar ao telefone.
GOMES DE SÁ (volta à mesa do crítico): Ah! O senhor comprometido.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: O senhor Miguel Vaz Frio.
GOMES DE SÁ: Senhor Miguel Vaz Frio... o romancista, não! O escritor... o jornalista, o compositor. Adoro a sua opereta em lá menor...
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Crítico.
GOMES DE SÁ: Crítico de arte Miguel Vaz Frio! Adoro a sua abordagem ao contemporâneo!
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Crítico gastronómico.
GOMES DE SÁ: Crítico gastronómico... Então Kandinski não lhe diz nada... Muito bem... Crítico gastronómico com pressa... Forrar... Vermeer? Também nada...

                Gomes de Sá pega no letreiro que diz ‘reservado’ e olha em volta. Volta a fitar a vítima e dirige-se novamente à sua mesa.

GOMES DE SÁ: Olá novamente!
VÍTIMA: Olá.
GOMES DE SÁ: Continua tudo bem?
VÍTIMA: Sim, mas… (olhando para o letreiro) esta mesa está cheia.
GOMES DE SÁ: Pois… (continua a baixar o letreiro para o poisar naquela mesa).
VÍTIMA: Mas eu já estou aqui!
GOMES DE SÁ: Sim e agora está reservada.

[Vídeos de Câmara de Vigilância: corredor vazio e corredor com Gomes de Sá]

A imagem do que poderia ser um vídeo de vigilância de um corredor de cave começa a ser emitida e Gomes de Sá fica apreensivo e sai. Vemos ainda Gomes de Sá no víde,o a percorrer o corredor a espreitar ao fundo com expressão preocupada. Fica alguns momentos a escutar e volta a percorrer o corredor.

[2º número de variedades: Receitas e Segredos Passe-Vite]

Escuta-se a introdução de uma música (Mulath Astake - Chifara). Quando o ritmo aumenta, entra Marie e coloca-se por detrás da bancada móvel de cozinha.

MARIE: Boa noite, hoje, nesta altura tão especial, cederam-me a oportunidade de vos mostrar algumas das receitas e segredos Passe-Vite! Por isso, vou começar por uma receita muito simples… Sopa da Pedra! Necessito de uma pedra, mas não de uma pedra qualquer: tem de ser uma pedra redondinha, branquinha e limadinha e o que eu tenho aqui é um calhau! Vou pedir, portanto, ajuda a um voluntário. O senhor aí ao fundo de casaco castanho (dirige-se a João Miguel Vaz Frio que se tinha levantado e caminhava no sentido da porta de saída), queira ajudar-me! (Ele acede ao pedido). Obrigada.
                O senhor pegue na pedra, coloque a pedra no recipiente (Marie retira o recipiente de baixo da bancada) e vá banhando assim (Marie demonstra como deve ser banhada a pedra), até que a erosão se confirme o que é capaz de demorar cerca de 42 meses. Enquanto o nosso amigo nos ajuda com a Sopa da Pedra, vou continuando a revelar-vos mais segredos.
                Passemos, então, para a receita seguinte que é exactamente uma bucha. (Marie retira dois pães debaixo da bancada e duas fatias de queijo enquanto explica) Duas fatias de queijo… duas fatias de pão… mas não de um pão qualquer, tem de ser pão que o Diabo amassou. Modo de preparação: juntamos pão, pão (coloca os pães um por cima do outro) e as fatias de queijo (coloca as fatias de queijo por cima dos pães) e temos: pão, pão, queijo, queijo – a bucha do desejo.
                E agora tenho o prazer de vos apresentar uma receita que tem passado de geração em geração na minha família. (Marie retira debaixo da bancada um copo com arroz, um saco de açúcar, um recipiente para fazer a mistura e vai explicando) Precisamos de arroz, açúcar e um recipiente. Juntamos arroz, açúcar e mexemos bem. Temos arroz doce!
                Se nada disto vos aprouver, então, eu tenho a solução – sim porque eu tenho a solução para tudo! – Fome! O melhor tempero… (polvilha todos os restantes pratos com o tempero) é a fome!
Boa noite e parabéns Passe-Vite!

Marie repara que João Miguel Vaz Frio continuou não só a banhar a pedra, como está num transe de dança com a mesma. Deixa-o continuar naquele estado.
                Gomes de Sá volta à sala para apresentar o 1º prato e, enquanto o faz, vai observando admirado João Miguel Vaz Frio, que não pára de dançar com a pedra e não o escuta no seu discurso.

GOMES DE SÁ: Espero que o caldo verde tenha sido do vosso agrado. Venho agora apresentar-vos o nosso 1º prato, uma especialidade do nosso chef Yakusa: Mil folhas de aves. É um folhado de aves, no fundo. De alheira. Dobra-se a massa, estende-se a massa, dobra-se a massa, estende-se a massa, coloca-se manteiga lá dentro… e tem alheira lá dentro!

[1º prato – Livro de Yakusa (folhado de alheira) servido pelas ajudantes de cozinha. Yakusa espera para servir João Miguel Vaz Frio]

Gomes de Sá volta a atenção para o crítico e começa a dançar com ele, mas sem o tocar, imitando-o. Mantém a dança por alguns minutos, até que Gomes de Sá lhe tapa os ouvidos e deixamos de escutar a música. João Miguel Vaz Frio volta a si.

GOMES DE SÁ: Aqui tem o mil-folhas que anunciei ainda agora. Não sei se estava connosco.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Qual é a estória deste prato?
GOMES DE SÁ: Abre-se, dobra-se, estende-se, dobra-se… É um folhado… de aves. (O crítico pega na pedra e permanece sempre com ela). Pegue nele e coma--o: há-de azedar-lhe no estômago, mas na boca vai saber-lhe a mel (o crítico prova o folhado).

João Miguel Vaz frio cospe para o guardanapo o que acabou de provar.

JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (falando e abrindo o seu caderno e começando a anotar): É a primeira vez que faz este prato? (dirigindo-se para Yakusa).
GOMES DE SÁ: Não, não. Este prato é confeccionado pelo Yakusa há mais de dez anos.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (dirigindo-se para Yakusa): As pessoas gostam deste prato?
GOMES DE SÁ: É um prato muito apreciado.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (dirigindo-se para Yakusa): Os seus pais já provaram?
GOMES DE SÁ: Sim, claro!
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (dirigindo-se para Yakusa): Tem o amor dos seus pais?
GOMES DE SÁ: O Yakusa é um filho muito amado!

Yakusa, que está por detrás do ombro esquerdo de João Miguel Vaz Frio, faz uma rápida careta com a língua de fora e sai para a copa.

GOMES DE SÁ: É preciso que continue a profetizar contra muitos povos, nações, línguas e reinos… (vai-se afastando do crítico e dirige-se ao microfone).
                E, agora, para continuarem a disfrutar deste prato, mais um número: O Frango Sinatra! Palmas meus senhores!

[3º número de variedades: Frango Sinatra (Frank Sinatra – Come Fly With Me): um frango usado como marioneta por cima da bancada de cozinha móvel faz um dueto enamorado de sapateado com Juanita]

[Vídeo Templo na Arca Frigorífica: vê-se Gomes de Sá a abrir uma arca frigorífica e a rezar para um altar que tem montado no seu interior]

[4º número de variedades: Estória dos Alhos e Bugalhos]

Entra Gaby, pega no microfone e dirige-se aos clientes.

GABY: Boa noite, senhoras e senhores. Eu vim aqui contar uma estória verídica, que mudou para sempre a História da Culinária Contemporânea. Alguém aqui sabe por que é que não se misturam alhos com bugalhos? (Não deixa ninguém responder) Não. Eu vou contar.
                Era um casal de um alho e um bugalho, um casal normal que vocês vêem todos os dias e o bugalho foi para a Guerra dos Bugalhões combater bugalhinhos. O alho ficou em casa, durante cerca de três anos, e, nesse tempo, conheceu uma cebola – uma cebola do campo com uma casquinha fácil de tirar. Entretanto, vem o bugalho da guerra e, quando chega a casa, dá de caras com o alho e a cebola numa banheira de caldo Knorr a beberem um copo de azeite. O bugalho, ao ver aquilo com os seus olhos esbugalhados, diz: ‘Qu’est-ce que c’est ça? Você já não me quer, alho? Que alhada vem a ser esta?’ E o alho também surpreendido de ver ali o bugalho diz: ‘Querido bugalho, ne c’est pas o que parrece! Eu sempre que estou com a cebola choro só de pensar em ti! Tu sabes que ainda sou o teu dente- -de-alho e você a minha angiosperma. A cebola, ao ouvir estas palavras não tão carinhosas para com ela, saca de uma pistola e… pum! Mata o alho. E pum! Mata também o bugalho. E faz um estrugido, um estrugido que depois colocou no frigorífico, porque todos sabemos que a vingança é um prato que se serve frio, e deu-o às suas amigas cebolinhas. Era um estrugido que sabia muito mal, porque tinha o sabor da traição.
                E é por isso que não se pode misturar alhos com bugalhos. Boa noite.

Gaby começa a dirigir-se para a copa e é interrompida por João Miguel Vaz Frio.

JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Então como explica que cebola e alho combinem tão bem, se consubstanciam uma infidelidade?
GABY: O estrugido proibido é o mais apetecido.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: O estrugido proibido não devia conter maçã?
GABY: Une affair não se quer doce.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: É esse o sabor do casamento?
GABY: Doce aos três, adstringente aos sete e carbonate aos doze.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: E o da saída? (levanta-se e dirigindo-se para a porta de saída)
GABY: Com concasseé.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: En gelée.
GABY: Depuis de gratinée.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Gratin satin.
GABY: Vol-au-vent.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: É esse o sabor da morte?
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Figo.
GABY: Passa.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Fermento.
GABY: Farinha.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Panado.
GABY: Tártaro.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Velauté.
GABY: Brie.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Ginja.
GABY: Cereja.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Mirtilo.
GABY: Marmelo.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Melão.
GABY: Abacaxi.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Goiaba.
GABY: Maracujá.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Abacate.
GABY: Anona.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Açaí.
GABY: Ameixa.
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Tomarei nota.
Escuta-se música (marcha fúnebre de Beethoven).

[2º prato (crepes) – preparação por Yakusa ao vivo com recitações em japonês, servido pelas ajudantes de comida à sala]

A meio do processo, entra Gomes de Sá e dirige-se ao microfone com a Bíblia na mão.

GOMES DE SÁ, declamado quase gritado: Lança a tua foice, pois chegou a hora de ceifar porque a seara da terra já está madura. Pega na tua foice afiada e vindima os cachos da vinha da terra, porque as uvas já estão maduras. O que vão desfrutar agora é exactamente um crepe... Uma nuvem… Um enrolado…

[BLACKOUT]

                Escuta-se música (Angelo Badalamenti - Andrey’s Dance). A equipa de cozinha movimenta-se em câmara lenta e dirige-se para a Vítima numa sequência que tem por objectivo deixar derramar água sobre ela como se fosse por acidente, a qual inclui Juanita a simular o parto.

MARIE (em câmara lenta para a vítima): Prefere água fresca ou natural?
VÍTIMA: Pode ser natural.

É derramada água sobre a vítima.

VÍTIMA: Ai! Está fria! Molharam-me toda!
EQUIPA, quase em uníssono: Ah! Oh! Desculpe. Venha connosco, tem que se limpar.
GOMES DE SÁ (aproxima-se): Peço imensa desculpa pelo que aconteceu. Vá limpar-se lá dentro. (Afasta-se e vai na direcção do crítico que apresenta uma expressão indignada). Ó, despejaram água sobre a senhora. Às vezes acontece…
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO: Pareceu de propósito. Despejaram água de propósito na senhora. Vou-me embora, já chega!
GOMES DE SÁ: Não foi nada! Tenha calma. Deixe-se ficar!

Conversam. Vão-se dirigindo para a porta. Permanecem lá uns minutos. Voltam. Gomes de Sá vem com uma expressão de deslumbramento, quase infantil. Conversam, dirigindo-se devagar para a mesa do crítico.

GOMES DE SÁ (vem com a Bíblia na mão): … no Egipto eles encontraram tudo o que necessitavam. Sentiram-se plenos! (…) No Passe-Vite não se inventa nada, já tudo foi inventado. Fique mais um pouco na nossa companhia. Tenho a certeza de que será bastante agradável!

Deixa João Miguel Vaz Frio e aproxima-se do microfone:
GOMES DE SÁ: Enquanto continuam a fruir do nosso enrolado, gostava de partilhar convosco mais uma leitura bíblica sobre a Brevidade da Vida (lendo da Bíblia). Eu disse a mim próprio: ‘vigiarei sobre a minha conduta, para não pecar com a língua; refrearei a minha boca, enquanto o ímpio estiver diante de mim’. Fiquei calado e em silêncio, mas sem proveito, porque se agravou a minha dor. O coração ardia-me no peito; de tanto pensar nisto, esse fogo avivava-se e deixei a minha língua dizer: ‘Senhor, dá-me a conhecer o meu fim e o número dos meus dias, para que veja como sou efémero. De poucos palmos fizeste os meus dias; diante de ti a minha existência é como nada; o homem não é mais do que um sopro! Ele passa como simples sombra! É em vão que se agita: amontoa riquezas e não sabe para quem ficam. Agora, Senhor, que posso eu esperar? A minha esperança está em ti. Livra-me de todas as minhas faltas; não deixeis que o insensato se ria de mim. Fiquei calado, sem abrir a boca, porque és Tu quem intervém. Afasta de mim os teus castigos; desfaleço ao peso da tua mão. Tu corriges o homem, castigando a sua culpa, e, como a traça, destróis o que ele mais estima. Na verdade, o homem é apenas um sopro. Senhor, ouve a minha oração, escuta o meu lamento; não fiques insensível às minhas lágrimas. Diante de ti sou como um estrangeiro, um hóspede, como os meus antepassados. Desvia de mim os olhos, para que eu possa respirar; antes que tenha de partir, e acabe a minha existência’.
E agora peço um grande aplauso para o momento alto desta noite e de todas as festas de aniversário: Nita!

[5º e último número de variedades a Canção de Aniversário (Happy Birthday – jazz version): Gomes de Sá força Juanita a cantá-la]

Gomes de Sá retira o casaco de Juanita e expõe a sua barriga de grávida. Juanita canta com voz embargada e chora no final. Juanita apanha o casaco do chão e sai o mais rápido que consegue para a copa.

GOMES DE SÁ (no final): Obrigado! Obrigado! Foi um prazer!
JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (com expressão infantil e batendo palmas com as mãos juntas): Bolo! Bolo! Bolo! (muda de expressão, para uma mais melancólica). Sr. Gomes de Sá, já posso ir para casa agora?

[Equipa de cozinha transfigura-se nos Quatro cavaleiros do Apocalipse]

[1º Cavaleiro: Gaby]
Gabi entra com um carro onde tem uma tábua de cozinha com vegetais. Segredando frases que vão aumentando de tom. Desloca-se assim até ao fundo da sala, onde se encontra um candeeiro.

GABY (falando já alto): Foram resgatados como primícias da humanidade por Deus e pelo Cordeiro. (Pega no pepino). Pepininho com um toque tão suave e masculino (pega na faca e arrasta-a ao longo do pepino). Pepininho é a tua amiga (corta sonoramente). Descansa pepininho.
Cenourinha (música: Requiem - Mozart) tão magoada e cicatrizada como quem precisa de carinho, carinho que só eu sei dar. Sim cenourinha tu sabes que podes contar comigo (corta sonoramente).
Tomatinho tão vermelhinho, tão macio como a minha pele. (Fura-o com a faca). Escorre tomatinho, deixa-te escorrer, podes escorrer tomatinho, podes escorrer (corta sonoramente). Na sua boca não se achou mentira. São irrepreensíveis.
Bananinha tão amarela e ingénua como quem pede para as suas vestes serem tiradas (retira a casta, e lambe o interior carnudo. Come-o). Estes são os que não se perverteram com mulheres porque são virgens. Estes são os que seguem o Cordeiro para toda a parte.
[Vídeo da Reconstituição da Última Ceia ainda sem Gomes de Sá e Vítima]
Amiguinhos, ó não! (Junta os pedaços cortados dos vegetais, coloca-se de joelhos). Amiguinhos não! Ó desculpem! Eu não queria fazer isto! Eu não queria fazer isto! Eu não queria fazer isto! (Grita. Chora). Desculpem amiguinhos. Desculpem. Vamos ficar juntos para sempre. Amiguinhos! Vamos ficar juntos para sempre! Amiguinhos! (Flagela-se com ramos de nabiças).
Gaby mantém-se nessa acção até ao final do espectáculo. Entretanto, despe a jaleca e vêem-se marcas de feridas nas suas costas.

[Vídeos de Câmara de Vigilância: Gomes de Sá arrasta a Vítima]

 [2º Cavaleiro: Marie. Vestido branco, venda nos olhos, mão esquerda constituída de espetos, maçãs são trazidas dentro de um lenço branco e atiradas ao chão e devoradas, uma e outra vez. Movimenta-se pela sala, experimentando a mão metálica, sentando-se no banco que arrasta para o centro da sala, onde cria estátuas vivas. Sai apanhando as maçãs com a outra mão. Vai-se colocar noutro canto da sala, onde está outro candeeiro e mantém-se com a mesma acção até ao final]

[Vídeo da Reconstituição da Última Ceia: Gomes de Sá coloca a Vítima]

[3º Cavaleiro: Juanita. Entra de rompante com um vestido branco mais comprido mas do mesmo tecido do anterior, todo ensanguentado e uma faca na sua mão. Atira arroz ao chão. Movimenta-se mais no espaço. Pára. Atira arroz ao chão. Grita. Faz penitência andando com os joelhos por cima do arroz. Arrasta-se até a um outro candeeiro num dos cantos da sala. Mantém-se até ao final em agonia, vergonha e dor]

[Vídeo da Reconstituição da Última Ceia: Gomes de Sá toma o lugar de Cristo]

[4º Cavaleiro: Yakusa. Veste somente uma cueca de pano branco. Traz dois ramos de alho-francês e uma melancia consigo. Vai até à bancada de cozinha móvel. Começa a bater com os ramos de alho-francês na melancia, destruindo-os.
Destapa a cabeça e mostra a careca. Destrói a melancia. Retira lá de dentro um pó branco, depois uma língua vermelha. Permanece com ela na boca. Vai-se colocar no centro da sala num banco que foi deixado por Marie onde cria a estátua viva do 4º Cavaleiro com a sua flecha]

JOÃO MIGUEL VAZ FRIO (constatando, ainda sentado): Caiu, caiu a grande Babilónia. (Levanta-se com a pedra na mão mas mantém-se na mesa). Antro de demónios, guarida de todos os espíritos imundos; porque, do vinho da sua luxúria, se embriagaram todas as nações; prostituíram-se com ela os reis da terra, e, com o seu luxo despudorado, enriqueceram os comerciantes do mundo.
Meu povo, (mais exaltado, começa a movimentar-se nas sala, sempre com a pedra na mão) saí desta cidade para não serdes cúmplice do seu crime nem vítima dos seus castigos. Fora os cães, os feiticeiros, os luxuriosos, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a fraude. Todos terão como herança o lago ardente do fogo e enxofre (mais baixo). Aí serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos e séculos.
                Vem cá (para uma pessoa numa mesa). Vou mostrar-te a sentença contra a grande prostituta. Aquela que dizia: ‘Estou sentada no trono como rainha, não sou viúva e jamais conhecerei o luto’. No deserto, deserto vi, vi uma mulher, mulher coberta, coberta de nomes, nomes blasfemos, montada numa besta. A besta odiará a prostituta, vai devorar a sua carne e destruí-la pelo fogo. Chorarão por ela os que tomaram parte na sua prostituição e na sua luxúria, quando virem o fumo do braseiro da cidade: Ai caiu, caiu a grande Babilónia!
A melodia das cítaras e dos músicos nunca mais se ouvirá dentro de ti. Nunca mais se encontrará em ti nenhum artista de qualquer arte que seja. A luz da lâmpada nunca mais brilhará dentro de ti.

[Vídeos de Câmara de Vigilância: Gomes de Sá transfigurado em Cristo atravessa o corredor]

O 4º Cavaleiro sai do banco e coloca-se no último candeeiro livre da sala.

[BLACKOUT]

Em voz-off escuta-se: Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e Último, o Princípio e o Fim. Ao que tiver sede, Eu lhe darei a beber gratuitamente, da nascente da água da vida. Enxugarei todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram. Felizes os que lavam as suas vestes, para terem direito à Árvore da Vida e poderem entrar nas portas da Nova Jerusalém.

[Sobremesa: iogurte grego com frutos silvestres e biscoitos de milho triturado]

Entra Gomes de Sá transfigurado em Cristo e serve a sobremesa a João Miguel Vaz Frio. A equipa de cozinha transfigurada nos quatro cavaleiros do apocalipse serve a sobremesa aos restantes. A música (Requiem - Mozart) termina. FIM